em palavras vazias
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Busto Arsizio, 2005
recordo-me.
pesavam-me as palavras.
pesava-me o corpo, o sangue. ouvia-o correr nas veias devagar.
o cansaço das ideias gastas dos heróis de pacotilha.
olha-me.
estamos aqui.
iguais.
[talvez pudesses dizer-me que cada Homem é um mundo]

Siena, 2004
perdes-te de novo neste olhar.
quero que saibas: o duomo continua incompleto, passados todos estes séculos. existe o espaço e as fundações. continuam à espera, da vontade. permanece a promessa.
à frente uma torre alta como tu. mais além o sonho.
uma promessa por cumprir.
são assim as memórias. amontoados inúteis
de palavras?
de silêncios?
de olhares?
perdidos no tempo.
continuas a dizer que quase todas as operações de paciência são arriscadas.
agora.

Bolonha, 2004
sinto o caminho encher-se de vazio
a distância encher-se de distância
e de pedras
imagino o olhar
perdido
no fim da linha.
[a distância pode ser uma pedra que nos habita a boca?]

Riomaggiore, 2004
casas. tenho pensado casas.
sobre
rios,
ruas
falésias.
tenho pensado cores, cheiros e ruídos.
[as casas são lugares inóspitos sem gente]
no azul do mar
sobre a falésia encontras a tua tristeza
indeterminada como a saudade.
[esta tristeza e esta saudade. inúteis]
há uma razão
neste silêncio pressentido
porque se inflama em mim
o extenuado lume
da espera.
[a hemorragia irremediável do silêncio]
casas. tenho pensado casas
cores quentes
luz indirecta.
e retomo a respiração.
[a manhã é a minha única certeza. agora.]

Oberammergau, 2005
o desconhecimento anda de mãos dadas com o preconceito.
pinta-me com as cores que desejares. atrás destas paredes existo eu.
inacessível.

Cacilhas, 2005
tantas vezes olhas em silêncio e sorris. com o tempo ganha-se treino e encontra-se a ruina.
[ainda os heróis e os eruditos. ainda o cansaço]

Oberammergau, 2005
penso casas. muitas vezes me surpreendo a olhá-las.
gostaria de ter uma casa minha. onde pintasse histórias.
esta é a do lobo mau.
pinta[mos]s outra?
[casa pode ser o sítio onde guardas as tuas histórias?]
Gravas no vazio dos teus olhos
A altura de um farol:
Há essa distância que te rouba o peito ao mar.

Istambul, 2005 (fotografia de jorge)
Talvez penses prisões:
As dos horizontes.
E possivelmente a tua.
Certamente te perdes em lendas,
Conhecida a profecia…
O que te mata… é o salto que não dás.
Para ti nada muda: profecias, faróis ou prisões.

Istambul, 2005
conhecida a profecia, mandou o sultão construir uma torre e nela encerrar a sua filha muito amada.
para lhe aliviar a prisão, desejou que nada lhe faltasse, desde a companhia à distração.
um dia, quando retirava fruta fresca de um cesto, foi a jovem princesa mordida por uma cobra e morreu.
resta hoje um local turístico com um agradável restaurante no topo de onde se avista o golden horn e parte do bósforo. foi ainda prisão e antes disso farol.
tudo muda: profecias, faróis e prisões.
ou não?

Fotografia de Susana
toma o meu coração.
é teu.