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olhar naufragado

em palavras vazias

 
Sunday, 28 August 2005
a explicação da saudade § 6

Jorge - Tirrénia, 2005
Tirrénia, 2005

a quinta saudade é a do quotidiano, ideias e projectos, ensaios e certezas, coisas importantes, peso e medida, espessura, ritmo, existência real, coisas que se vão construindo porque se está a caminhar na mesma direcção de forma consciente, coisas que reciprocamente aperfeiçoadas, combinações de loucura e de bom senso que se vê resultarem graças ao empenhamento contagiante e alegre da dádiva séria que é posta em movimento.

 

[ainda o cansaço. ninguém mais do que eu deseja repousar. ainda o vento. ou a falta dele.]

posted by: jorge at 21:21 | link | |

Friday, 26 August 2005
era uma vez...

Jorge - Tirrénia, 2005

Tirrénia, 2005

FOGE QUE TE APANHO!!!!!   

[este vento. este mar. ou não.]

posted by: jorge at 02:36 | link | |

Thursday, 25 August 2005
[esta] falta

Jorge - Lisboa, 2005

Lisboa, 2005

quando vens, giro em voltas infindáveis.

se vens, rodo no teu compasso.

quando tardas, procuro-te.

esta calma, agora.

espero [te].

 
[procurar é diferente de esperar, mas não muito. às vezes]

 

posted by: jorge at 00:56 | link | |

Friday, 19 August 2005
limite

Jorge - Pisa, 2005

Pisa, 2005

existem limites.

 

 

existe o tempo.

existes tu.

existo eu.

até ao dia.

um dia.

o dia.

 

 

[o tempo acabará por te apanhar; eu por te perder]

posted by: jorge at 19:23 | link | |

Wednesday, 17 August 2005
construções

Jorge - Tirrenia, 2005

Tirrénia, 2005

este respirar. ouves?

este olhar. vês?

este silêncio. sentes?

 

[abraçar a construção. dos sentidos]

posted by: jorge at 19:28 | link | |

Sunday, 14 August 2005
acreditar

Jorge - Tirrénia, 2005
Tirrénia, 2005

ainda o mar e o céu.
às vezes é preciso que nos percamos para que possamos encontrar.
é tudo.

posted by: jorge at 17:24 | link | |

Friday, 12 August 2005
a explicação da saudade § 5

Fotografia de Susana Rocha

Fotografia de Susana Rocha

a quarta saudade é a do contacto da pele. mãos que se tocam, apertam e percorrem, em carícias que se ousam, bocas que se encontram, sensações que se conhecem de cor e se querem sem fim, corpos prestes a explodir de ânsia, fome e sede, impaciência e timidez, contenção e promessa, sempre a renovar-se e a cada momento a tornar-se infinito, misturado com uma ternura que nenhumas palavras conseguem transmitir.

[uso demasiadas palavras. quase todas inúteis]

posted by: jorge at 22:34 | link | |

Wednesday, 10 August 2005
a explicação da saudade § 4

Jorge - Roma, 2004
Roma, 2004

a terceira saudade liga-se aos momentos mais importantes que se vivem. caminhos, passeios e paisagens, coisas que nos contam, segredos subitamente tornados necessários, sonhos e presunções, expressões que guardamos, efeitos de luz, ruídos, músicas repetidamente escutadas enquanto se rasga a noite, cores, sabores, emoções em que o nós e o de fora se combinam de um modo único e partilhado fazendo-nos crer que a mais ninguém tenha acontecido, em que o que já se passou continua a estar presente e é cada vez mais intenso e vivo.

[inutilmente tenho saudade do futuro. acompanha-me]

posted by: jorge at 23:41 | link | |

Wednesday, 03 August 2005
a explicação da saudade § 3

Jorge - Milão, 2004
Milão, 2004

a segunda saudade é a de ver e ouvir, de mergulhar nos olhos do outro e no seu sorriso e assim calar as palavras desnecessárias e reparar nos gestos que se fazem ou simplesmente se esboçam e de sentir que nisso se é objectivamente explícito e nas mensagens que se transmitem, escutar o que nos dizem e ser capaz de adivinhar naturalmente o outro, pela respiração das palavras e suas pausas, tudo o que se quer realmente dizer.

[também por isto, escutar é muito mais exigente e difícil do que falar]

posted by: jorge at 22:58 | link | |

Tuesday, 02 August 2005
a explicação da saudade § 2

Fotografia de Susana Rocha
Fotografia de Susana Rocha, Braga

é de el-rei  d. sancho I o texto mais antigo que conheço, onde se aprofunda a composição da saudade.
etimológicamente saudade nasce do latim solitates, que deu soedade, soidade, suidade e saudade.

[perco-me]

sabemos que saudades se podem ter de alguém ou de alguma coisa.
simplifico: escreverei a saudade de alguém.

a primeira saudade é a da harmonia num repouso intenso e sereno ao mesmo tempo. uma sensação que enche a alma e o corpo por dentro e os leva a sentir que está tudo no seu lugar, que se está certo nesse lugar e certo na relação de um com o outro, que tudo é brilhante e musical, que a sincronia resulta de uma tensão de constante ternura, inteligência, sensibilidade e desejo.

[esta coisa da saudade é absolutamente inútil; tal como a minha escrita, de resto]

posted by: jorge at 00:11 | link | |