em palavras vazias
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Tirrénia, 2005
a quinta saudade é a do quotidiano, ideias e projectos, ensaios e certezas, coisas importantes, peso e medida, espessura, ritmo, existência real, coisas que se vão construindo porque se está a caminhar na mesma direcção de forma consciente, coisas que reciprocamente aperfeiçoadas, combinações de loucura e de bom senso que se vê resultarem graças ao empenhamento contagiante e alegre da dádiva séria que é posta em movimento.
[ainda o cansaço. ninguém mais do que eu deseja repousar. ainda o vento. ou a falta dele.]

Tirrénia, 2005
FOGE QUE TE APANHO!!!!! ![]()
[este vento. este mar. ou não.]

Lisboa, 2005
quando vens, giro em voltas infindáveis.
se vens, rodo no teu compasso.
quando tardas, procuro-te.
esta calma, agora.
espero [te].
[procurar é diferente de esperar, mas não muito. às vezes]

Pisa, 2005
existem limites.
existe o tempo.
existes tu.
existo eu.
até ao dia.
um dia.
o dia.
[o tempo acabará por te apanhar; eu por te perder]

Tirrénia, 2005
este respirar. ouves?
este olhar. vês?
este silêncio. sentes?
[abraçar a construção. dos sentidos]

Tirrénia, 2005
ainda o mar e o céu.
às vezes é preciso que nos percamos para que possamos encontrar.
é tudo.

Fotografia de Susana Rocha
a quarta saudade é a do contacto da pele. mãos que se tocam, apertam e percorrem, em carícias que se ousam, bocas que se encontram, sensações que se conhecem de cor e se querem sem fim, corpos prestes a explodir de ânsia, fome e sede, impaciência e timidez, contenção e promessa, sempre a renovar-se e a cada momento a tornar-se infinito, misturado com uma ternura que nenhumas palavras conseguem transmitir.
[uso demasiadas palavras. quase todas inúteis]

Roma, 2004
a terceira saudade liga-se aos momentos mais importantes que se vivem. caminhos, passeios e paisagens, coisas que nos contam, segredos subitamente tornados necessários, sonhos e presunções, expressões que guardamos, efeitos de luz, ruídos, músicas repetidamente escutadas enquanto se rasga a noite, cores, sabores, emoções em que o nós e o de fora se combinam de um modo único e partilhado fazendo-nos crer que a mais ninguém tenha acontecido, em que o que já se passou continua a estar presente e é cada vez mais intenso e vivo.
[inutilmente tenho saudade do futuro. acompanha-me]

Milão, 2004
a segunda saudade é a de ver e ouvir, de mergulhar nos olhos do outro e no seu sorriso e assim calar as palavras desnecessárias e reparar nos gestos que se fazem ou simplesmente se esboçam e de sentir que nisso se é objectivamente explícito e nas mensagens que se transmitem, escutar o que nos dizem e ser capaz de adivinhar naturalmente o outro, pela respiração das palavras e suas pausas, tudo o que se quer realmente dizer.
[também por isto, escutar é muito mais exigente e difícil do que falar]

Fotografia de Susana Rocha, Braga
é de el-rei d. sancho I o texto mais antigo que conheço, onde se aprofunda a composição da saudade.
etimológicamente saudade nasce do latim solitates, que deu soedade, soidade, suidade e saudade.
[perco-me]
sabemos que saudades se podem ter de alguém ou de alguma coisa.
simplifico: escreverei a saudade de alguém.
a primeira saudade é a da harmonia num repouso intenso e sereno ao mesmo tempo. uma sensação que enche a alma e o corpo por dentro e os leva a sentir que está tudo no seu lugar, que se está certo nesse lugar e certo na relação de um com o outro, que tudo é brilhante e musical, que a sincronia resulta de uma tensão de constante ternura, inteligência, sensibilidade e desejo.
[esta coisa da saudade é absolutamente inútil; tal como a minha escrita, de resto]